MEMÓRIAS ESCRACHADAS
Há 26 anos, no dia 19 de janeiro, Elis Regina Carvalho Costa deixava nosso convívio. Ninguém sabe o que ocorreu depois que os amigos e o namorado, Samuel MacDowell, deixaram o apartamento em que houvera uma grande festa, daquelas em que ela reunia os músicos e amigos mais íntimos.
Elis tinha, quem sabe, o tal comportamento bipolar de que falam os psiquiatras. Ora estava séria, compenetrada, ora caía em gargalhadas histéricas. Talvez isso explique a mudança naquela madrugada de 19 de janeiro. Eu estava em férias, no Recife, quando ouvi a notícia na televisão. Só não chorei para não dar bandeira. Era do tipo homem que é homem não chora, mas naquele momento o mundo inteiro ruiu sobre mim.
Repórter da revista Intervalo (Editora Abril), acompanhava toda semana o programa “O Fino da Bossa”, na TV Record. Ia logo depois do almoço para o boteco ao lado, onde sentava ao lado dos músicos e dos cantores que se aqueciam para os ensaios. Apareciam Baden Powell, Paulinho Nogueira, os irmãos Godoy – Amilson, Adylson e Amilton, do Zimbo Trio, Toquinho, Cyro Monteiro, enfim, quase todos os monstros sagrados da MPB. Era ali que amarrava as entrevistas, buscava informações, colhia dados importantes. Às vezes me infiltrava entre eles para assistir os ensaios. Durava até Elis Regina perceber. Quando pressentia a presença de repórteres, quaisquer que fossem, expulsava-os do estúdio sem piedade. Era exigente com os músicos, às vezes até grosseira, mas era discreta o suficiente para não discutir na presença de jornalistas. Além disso, as discussões eram meramente técnicas, perfeccionista que era.
Elis não se abria com os jornalistas, exceto com os mais íntimos, como Regina Echeverria, que acabou escrevendo o excelente “Furacão Elis” (Editora Globo) e Nelson Mota, que em “Noites Tropicais” (Editora Objetiva) admitiu ter tido um caso com ela, quando ainda casada com Ronaldo Bôscoli. A temperamental e apimentada Elis Regina só não cedeu aos encantos do mulherengo Toquinho. No programa-homenagem que a TV Globo reapresentou no dia 14 (segunda-feira), o próprio Toquinho admitiu sua frustração em jamais ter conseguido alguma coisa com ela. Já o Gilberto Gil admitiu ser apaixonado, mas nunca falou com ela sobre isso. No programa, Elis é representada por Hermila Guedes, a revelação olindense de “Céu de Suely”.
Louve-se a sensibilidade da Rede Globo, ao reapresentar o programa sobre Elis, oportunamente rememorada. Seus filhos estão aí, fazendo jus ao DNA. Seus filhos e seus discos, fitas, programas e demais tipos de gravações disponíveis na Internet.


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