quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

MEMÓRIAS ESCRACHADAS

ALTEMAR DUTRA

Um dos cantores com quem mantinha maior amizade, quando repórter da revista Contigo, era Altemar Dutra. Trata-se de figura humana simples, carinhosa, amiga, que não fazia nenhuma questão de cantar a qualquer hora, em qualquer lugar, qualquer música que lhe pedissem. Não fazia nenhum mistério quando lhe ofereciam qualquer bebida, para molhar a garganta e aquecer o coração. Cachaça, conhaque ou cerveja.
Fui algumas vezes ao sítio dele, nas proximidades de Mogi das Cruzes, onde a maior diversão, naturalmente, era cantar e encher a cara, sempre com fartura de bebida e comida.
A experiência mais curiosa, para não dizer vergonhosa, ocorreu no dia em que fui convidado a entregar-lhe o Troféu Imprensa, no Programa Sílvio Santos, que nessa ocasião era apresentado ao vivo, diretamente do auditório da praça Marechal Deodoro.
Marcamos um encontro no apartamento dele, na rua Veiga Filho, Higienópolis, para irmos juntos ao auditório. Antes de sair, ele fez questão de me mostrar seus vários troféus, espalhados pelos quartos e corredores. De melhor cantor eram dezenas, discos de ouro perdi a conta. Cada troféu um gole.
No meio da tarde, quando íamos saindo para a TV Globo, ele fez questão de levar mais um litro de uísque, sabendo que só seria chamado para receber o troféu à noite. O que fazer durante a tarde inteira, não é mesmo?
Quando Silvio Santos nos chamou, finalmente, para a cerimônia de entrega do troféu, já estávamos pra lá de Bagdá e subimos ao palco praticamente abraçados, segurando-nos mutuamente, com o risco de vergonhosa queda em pleno palco.
Foi minha vez de fazer a entrega formalmente, não sem antes proferir algumas palavras que justificassem a concessão da honraria.
Comecei dizendo que chegara há pouco tempo da casa dele, onde todos os quartos e corredores eram tomados por troféus. Assim - dizia eu - estava entregando apenas mais um, e não sabia onde poderia ser colocado.
Foi o bastante para Sílvio tirar-me o microfone e desconversar, rapidamente, passando ao próximo premiado. Não é preciso dizer que a partir daquele ano nunca mais participei do júri do Troféu Imprensa, que integrava desde sua criação, representando a revista Contigo.
Continuamos grandes amigos, até que um aneurisma cerebral levou Altemar inesperadamente, aos 43 anos, a 9 de novembro de 1983, em Nova York, não sei se por uísque. Acho que não, pois eu mesmo ainda estou aqui, aos 71.
Quanto ao criador do troféu, Plácido Manaia Nunes, despediu-se do nosso convívio há menos de um ano.

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