quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

MEMÓRIAS ESCRACHADAS - 3

HEBE CAMARGO

Para fazer Hebe Camargo chorar não é preciso quase nada. Basta mostrar uma flor ou a lua no horizonte. Basta lembrar que o SBT está fazendo aniversário. Ela chora quando recebe Gianecchini ou Paulo Autran, ou quando qualquer conjunto mambembe exibe sua performance. Desmancha-se em lágrimas por qualquer vintém. Mas imaginem se algum crítico, desses metidos a besta, que mete o pau em todo mundo, resolve esculhambar o programa dela, considerado o mais querido de todas as classes sociais. E se o comentarista pertencer à Associação Paulista dos Críticos de Arte?
Pois foi isso o que aconteceu. Numa coluna do jornal “A Gazeta”, onde substituí Walter Negrão com o pseudônimo de Zé Flávio, espinafrei o programa da Hebe em termos grosseiros. Só não a chamei de loira burra porque naquela época não era comum o preconceito contra as mulheres que não tinham cabelos pretos ou castanhos.
Na qualidade de repórter de “Intervalo” e colunista de televisão de “A Gazeta”, eu freqüentava os estúdios das emissoras em busca de notícias e entrevistas. Por isso, ia quase diariamente à TV Record, na avenida Miruna, em cujos corredores me alimentava de todo tipo de informação, inclusive de fofocas. Procurava sempre Maria Elisa Soares, que além de secretária de Paulo Machado de Carvalho era também a assessora de imprensa da emissora, quando esse tipo de atividade não era ainda institucionalizado.
Ao procurá-la no dia em que o tal comentário foi publicado (1972), ela gentilmente me aconselhou a sair, confidenciando-me que naquele exato momento Hebe estava aos prantos. Conversava com a cúpula da emissora as grosserias que eu publicara.
Seria melhor, portanto, que eu me retirasse dali rapidamente, dizia Maria Elisa, antes que a produção me identificasse. Afinal, a casa estava solidária com a “rainha”, que não era nenhuma santa, mas é como se fosse. Seus auxiliares e amigos a adoravam e se me encontrassem, iriam dizer o diabo ou partir para a ignorância.
Hoje reconheço e me penitencio: havia sido desnecessariamente cruel e usado termos vulgares. Talvez Hebe até merecesse algumas críticas, mas não podemos esquecer que as mais importantes personalidades de todos os setores de atividades a tratam ainda hoje como rainha. Impossível essa mulher não ter suas qualidades.
No ano passado, Maria Elisa foi como entrevistada pelo jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, na qualidade de primeira assessora de imprensa de uma emissora. Procurei-a para relembrar o episódio. Elegantemente, ela desconversou. Curtindo flores e pássaros na Serra da Cantareira, me disse que não se lembrava do incidente.
Também não sei se vale a pena relembrar, exceto a título de curiosidade.

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Televisão

HEBE CADA VEZ PIOR

Custa-nos acreditar que programas como o de Hebe Camargo liderem a audiência nos domingos à noite. Não acreditamos que o publico paulistano chegue ao ponto de perder três ou quatro horas de sua preciosa vida diante de um televisor, vendo e ouvindo as maiores tolices, os velhos chavões, os piores lugares-comuns. Tudo isso é realmente muito difícil de acreditar. E muito mais difícil ainda quando vemos programas como o de domingo passado. Nem o bonito cenário, nem o esforço da direção de TV, nem a inclusão de mini-tapes, nada, absolutamente nada conseguiu disfarçar – ao menos isso – a vulgaridade, a leviandade e a superficialidade com que a sra. Hebe Camargo trata os mais variados temas. Depois de muito criticada por causa do abuso de adjetivos do tipo “maravilhoso”, Hebe criou uma nova bossa. Ela expressa sua admiração pelas coisas que vê e mostra com um longo suspiro, um emocionante suspiro, seguido geralmente de gostosas gargalhadas. A TV Record, a Equipe A, dona Hebe Camargo, seja lá quem for o responsável por esse programa domingueiro, devia ter um mínimo de respeito pelo público. No programa da Hebe, o mais inteligente convidado fica com cara de palhaço, aderindo à badalação geral em torno do programa. Porque ele é líder de audiência, tudo quanto é promoção vai lá fazer sua propaganda. Tudo quanto é madame vai convidar gente para a festinha de caridade do colégio ou da matriz. Tudo quanto é cantor vai mostrar seu novo disco. Tudo quanto é diretor vai convidar para a peça que estréia logo mais. Quer dizer: o público compra televisor para se divertir ou para receber somente mensagens comercias. Não chegam os tapes das agências de publicidade que tomam quase toda a programação das emissoras? Enfim, por que esse programa continua no ar?

Zé Flávio
A Gazeta, 1972


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