MEMÓRIAS ESCRACHADAS - 7
Em seu mais recente livro, Ostra Feliz Não Faz Pérola (Editora Planeta), Rubem Alves conta um episódio curioso. Em 1964, mesmo sem ter qualquer tipo de ligação com os comunistas, foi obrigado a jogar no rio Grande certa quantidade de livros supostamente subversivos. Temia a tortura ou mesmo a morte, pois fora denunciado como inimigo do regime, embora acabasse de cumprir um ano de estudo nos Estados Unidos. Os livros haviam ficado em Lavras, onde era pastor presbiteriano.
O episódio me trás à lembrança e me dar oportunidade de contar outro, que aconteceu comigo em 1964. Era assessor de imprensa da prefeitura, no Governo Pelópidas Silveira, graças à generosidade do amigo Paulo Cavalcanti, quando fomos surpreendidos pelo golpe militar. No dia 2 de abril, Pelópidas e Paulo e ainda estavam na prefeitura quando foram presos. Antes, porém, liberaram secretários e assessores, na certeza de que haveria prisões.
O edifício Hollyday, em Boa Viagem, abrigava alguns desses assessores, que eram recolhidos quando desciam de seus apartamentos.
Foi quando alguns amigos da Aeronáutica, com os quais fizera amizade em três anos como cabo almoxarife, arquitetaram uma aventura. Em veículo da PE (Polícia Especial), conduziram-me preso, sob a mira de metralhadoras INA, alegando que havia um inquérito contra mim na Base Aérea do Recife.
Tudo balela, obviamente, para furar o cerco de 24 horas na portaria do prédio. Alguns quilômetros depois, colocaram-me num táxi, que me levou à casa de uma namorada.
Sabendo que em algum momento a polícia civil invadiria meu apartamento, tive o cuidado de reunir livros, revistas, jornais e posters em algumas caixas de papelão, conseguidas às pressas. Na casa da namorada tivemos a idéia de enterrar tudo no quintal. E assim livrei-me de importantes documentos que poderiam incriminar-me, na hipótese de prisão, que ocorreria de fato em junho, quando cansei de viver escondido como um criminoso e comecei a freqüentar a Associação Pernambucana de Imprensa, aonde jogava sinuca com o amigo e também jornalista Cláudio Tavares, notório comunista.
Um belo dia, ao sair da API em direção à casa da namorada, fui surpreendido por um jipe da polícia civil com dois investigadores, que me “convidaram” a acompanhá-los ao DOPS. No interior do veículo, um velho conhecido que se prontificara a identificar-me, já que os tiras não me conheciam. Era o vereador José Silvestre, cujo posicionamento na Câmara era questionado em reportagens na Ultima Hora, onde eu também trabalhava. Era a vingança. Para ele, eu tentava desmoralizá-lo porque estava a serviço da subversão.
Ao final da história, a atitude do vereador me trouxe um benefício inusitado. Livrei-me de eventual tortura, pois ficou a dúvida se eu era realmente perigoso subversivo ou mero inimigo pessoal do vereador corrupto.
A biblioteca de Rubem Alves ficou submersa, freqüentada por lambaris, piabas e dourados, como ele conta. A minha não sei. Talvez venha ser descoberta em explorações do Recife Antigo. Lembro a manchete de um Gramma, jornal do PC cubano, quando eu estive lá em janeiro de 1963, e que guardava com muito carinho para mostrar aos amigos: “La Revolución se hace para sean felices los niños, dijo Fidel”.
No Brasil, a revolução - na verdade um golpe de Estado - foi feita para atrasar o desenvolvimento em vinte anos.


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