quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

AVENTUREIRO LÍRICO


Sempre que a família se reunia nas festas de fim de ano, vangloriavamo-nos do auspicioso fato de não haver entre nós nenhum ladrão, ninguém de espírito malígno, nem prostituta, nem qualquer elemento que manchasse nossa reputação. Em reuniões de mesa de bar, por si só uma demonstração de deslize onde se expõe todo tipo de leviandades, eu costumava agradecer a Deus por ter nascido em um meio cristão, cheio de pureza, constituído de pessoas que temiam e respeitavam as leis. Por isso berrava, arrogante: na minha família não tem disso não. 
Ledo engano. Foi difícil admitir que toda família, por mais puritana, é uma mistura de seres humanos sujeitos a todo tipo de influência e a tomar os mais diferentes rumos. A realidade se impõe. 
Obviamente, o melhor a fazer é não tocar no assunto. Para quê, não é mesmo? Seria algo assim como mexer em casa de abelha. Só posso lembrar meu próprio caso, assumindo o risco de classificar-me como ovelha negra da família e confessar meus próprios pecados.
Na primeira infância fugia de casa estrada afora, rumo ao desconhecido, até que alguém me pegava pelo braço e perguntava: não é o filho de seu Dedé? E era. Na juventude, tomava emprestado o jipe do vizinho e rumava em direção à zona, com vários amigos e uma garrafa de pinga. Em viagem a Cuba, a convite de Francisco Julião - representante de Fidel no Recife - não fui ao embarque de volta porque queria ficar em Havana a todo custo. Eram tempos de Revolução, eu queria uma revolução particular e talvez nem tivesse consciência de fato do que estava fazendo. Queria estudar Medicina, mas cursava o 2º ano secundário no Colégio Estadual de Pernambuco. Sem o curso secundário completo, obviamente, não era possível entrar na faculdade. Tive de embarcar de volta no primeiro vôo.
Em Portugal, pus-me a procurar um certo Manoel. Fui aos jornais, aos Partidos, aí descobri que havia quase tantos partidos comunistas quantos Manoel, o nome é o mais comum por lá. Desisti depois de uma semana. Anos mais tarde reencontrei Manoel Messias em Olinda.
Graças à farta e inédita documentação reunida no livro "Confidencial", do advogado Hiram Fernandes, lançado pela CEPE, escapo ileso de todas as listas de perigosos subversivos elaborada pelo DOPS. Talvez porque meu processo foi arquivado pelo governador Paulo Guerra por falta de provas. Devo ter sido classificado como sonhador ou poeta. Algum dia cometi alguns sonetos e até os publiquei.

Se não fui ovelha negra da família, posso ao menos supor-me um aventureiro lírico.

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