segunda-feira, 24 de novembro de 2008

MEMÓRIAS ESCRACHADAS - 8

NINGUÉM ESCAPA DA CRISE

Ao fim da tarde, em momentos de lirismo movido a drinques, um amigo confessava que resolvera plantar flores, mesmo não sendo jardineiro. Em seguida, admitia que as flores invariavelmente nasciam murchas e morriam, ou seja, quem não é do ofício, não acerta a mão. Estou lembrando tertúlia de cinqüenta anos atrás quando o amigo filosofava em torno das habilidades humanas. Conseguia salvar vidas, era um excelente médico, dignosticava com facilidade qualquer doença, mas não conseguia fazer vingar um simples pé de rosas.
Parafraseando o amigo e poeta, resolvi analisar a crise mundial mesmo sem ser economista, chegando à conclusão de que ela jamais poderia me atingir. O dinheiro, esse misterioso bem da humanidade, jamais florescera nos jardins em torno do meu apartamento de 70 metros quadrados.
Os cálculos são simples. Aposentado depois de 36 anos de registro em carteira, afora os outros anos em que trabalhei sem papel assinado, não amealhara riquezas suficientes para tornar-me uma vítima do mercado financeiro internacional. É verdade que não sou exatamente um sem teto, nem mesmo um desempregado. Tive a honra de emprestar meus esforços a grandes empresas e de educar os filhos na USP, onde a despesa era com transporte e material escolar.
Quanto à crise, pode vir quente que eu estou fervendo, pensava. De modo algum ela poderia me atingir, a não ser impedindo meus passeios aos parques e aos concertos e shows gratuitos.
Depois de ter feito loas a esta suposta imunidade, eis que me informam que os juros do cheque especial subiram, de tanto para tanto – nem ouso escrever os números, já que em matemática sou mais retardado que macaco de auditório.
Soube também que não tenho reajuste desde que me aposentei em 1999, após cinco anos recebendo uma gratificação que se chamava pé-na-cova. Se houve algum aumento, não senti no bolso nem na conta bancária.
Supunha ingenuamente que esse negócio de crise atingiria apenas os que dispõem de grande investimentos.
Tinha pequena poupança na caixa, que tem tradição de garantia. Veio a falência do Banco de Santos, muito antes da tal crise, e me deu um prejuízo. O gerente disse que o tal banco integrava o fundo de investimentos onde colocara parte de meu FGTS.
Concluí, enfim, que não apenas os grandes investidores estão sendo prejudicados pela crise econômica mundial. Urge controlar melhor nossa saúde financeira. Caso persistam as dificuldades, o melhor é consultar um contador.

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