sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

QUANDO O NATAL FICA IGUAL

Com muita gente ocorre o fato inevitável de que o Natal se torna igual, ou seja, todo ano é a mesma coisa. A família se reúne em torno de uma árvore artificial cheia de presentes, entregues um a um antes ou depois da ceia. Existe até um consenso: quem recebe o seu, entrega o próximo em seguida e se alguém foi esquecido, logo a dona da casa se apressa em trocar o nome no pacote de quem não veio, ou no embrulho que já estava ali, providencialmente, para resolver o impasse.

O pior é quando o dono ou a dona de casa está cansado do ritual, ou melhor, cansado da mesma vidinha com a mesma pessoa, cujo relacionamento se deteriorou por algum motivo. Instalou-se no casal uma incompatibilidade que se não é de gênio, como é comum, pode ser de gênero. Há quem resolva um dia sair do armário, quer dizer, descobre tardiamente outra vocação ou tendência sexual e decide corajosamente enfrentar a situação. Casos assim já foram raros, hoje nem tanto.

Na maioria dos casos a família não aceita tais revelações, mas com o novo modelo de família, cada vez mais democrático, tudo acaba se acomodando, com ou sem traumas.

Assim, mesmo no seio das melhores famílias surgem casos jamais imaginados, que acabam de alguma maneira sendo absorvidos.

As separações nem sempre decorrem dessa contingência dramática. Surgem de divergências no dia-a-dia, dos desacertos econômicos, e também da descoberta de um novo amor. Há também o tédio, que nunca vem à tona com rapidez e clareza, lançando suas bases paulatinamente através de hábitos inconvenientes. Quando se instala uma rotina, o tédio se transforma num estopim e o comportamento fica à mercê de crises nervosas.

Chega o Natal, afloram crises, tédio, remorso, tristeza, tudo parece cair de uma vez sobre a cabeça das pessoas. Os solteiros se soltam nos bailes e nos encontros fortuitos das calçadas, nos bares ou nos clubes. Os mais moderninhos vão ao motel.

Sem a mesma liberdade, os casados escondem debaixo do tapete frustrações, diálogos inconclusos e ameaças não concretizadas, tudo em nome dos filhos, da família ou dos nobres sentimentos religiosos.

Vi tudo isso em muitos lares, convivi com muitos casais que passaram por tudo isso e senti na própria pele tais desencontros. Sofri essas dificuldades em minha própria casa e até hoje não sei como pude superar a dificuldade de abrir de certas coisas.

O Natal trás à tona os melhores sentimentos de amor, mas também os sentimentos de desamor e ódio que se escondem o ano inteiro debaixo do tapete. É preciso ter coragem para decidir ou ser covarde para deixar tudo igual.

Nunca fui dependente de álcool ou de qualquer outra droga, mas admito alguns pileques em momentos cruciais. Dizia a mim mesmo que uma dose era para dar o embalo, duas para tomar coragem, três uma espécie de psicanálise. Dia seguinte, estava tudo certo e nada resolvido. Até que a mulher, sempre mais resoluta, tomou a decisão. Até logo.

Contada assim, com toda a franqueza do mundo, minha separação amigável não é o melhor conto de Natal, mas um desabafo, uma espécie de dica para quem está sofrendo.

Na pior das hipóteses, seu Natal não será sempre igual.

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial