MEMÓRIAS ESCRACHADAS - 5
Como se sabe, a emoção toma diferentes formas e vem nas mais diversas circunstâncias. Às vezes surge do nada, outras é provocada, esperada, desejada. Foi nessa segunda hipótese que ela surgiu quando reencontrei o baterista e maestro Adelson Silva. Embora já o conhecesse de fotografias e o tivesse visto de longe, em outros espetáculos, desta vez resolvi procurá-lo, tal tiete.Para quem não sabe, ele é um dos bateristas da Spok Frevo Orquestra, que nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2008 voltou ao teatro do SESC Vila Mariana, em São Paulo, para apresentações lotadíssimas. Terminado o espetáculo, procurei Adelson na base da brincadeira, perguntando, inicialmente, se ele conheceu um maestro chamado Manoel Bombadino. Claro, disse ele, sem hesitar, é meu pai. Contei-lhe então como o conhecera, eu ainda menino, estudando para entrar na banda de música da cidade. Aquele homem alto e forte, provavelmente com 1,90 m de altura, preparava os meninos que entravam na banda, à medida que iam crescendo. Eu deveria ter sido um deles, não tivesse deixado Gravatá. Além de baterista da Spok, com a qual já viajou quase o mundo inteiro para divulgar o frevo, Adelson é hoje o maestro da banda XV de Novembro, que no ano passado completou 113 anos de atividades ininterruptas. Antes de morrer, Manoel Bombadino pediu ao filho para continuar seu trabalho. Por isso, há cerca de dez anos Adelson voltou à sua terra, para dedicar-se à formação de novos músicos, saindo sempre que convocado por Spok. Quem nasceu em Pernambuco não escapa de ouvir desde pequeno muitas bandas de música e muito frevo. No Carnaval ou fora dele, dezenas de conjuntos se dedicam ao frevo, um ritmo contagiante que desde o começo do Século XX predomina nas ruas de todas as cidades. Mas é no Recife e em Olinda que o frevo ganha grande colorido, movimentando multidões ou pequenos grupos. A Spok Frevo Orquestra surgiu há cerca de três anos, mas já existia desde 1996, com o nome de Banda Pernambucana. Foi o maestro Spok, na verdade Inaldo Cavalcante de Albuquerque, que reuniu os amigos com quem tocava nas ruas de Olinda e Recife para desenvolver um trabalho diferente, com arranjos modernos e visível influência do jazz. Desde o primeiro disco, Passo de Anjo - agora relançado em DVD e CD gravados ao vivo no Teatro Santa Isabel - tem merecido de toda a crítica os maiores elogios. O repertório é o que há de melhor na música do carnaval pernambucano. Os músicos são da melhor qualidade. Reencontrei o filho do meu professor de música como um dos componentes desse notável conjunto, que já tocou no SESC Vila Mariana, no Memorial da América Latina, nos festivais de Tatuí e em vários palcos da Europa.

