45 ANOS DEPOIS, UMA SEQUELA
O vice-governador Paulo Guerra assumiu o cargo de governador e o prefeito do Recife foi cassado pelos 25 vereadores, amedrontados com o cerco das Forças Armadas à Câmara Municipal. O único vereador que ousou votar contra a cassação, Jarbas de Holanda Pereira, sairia dali preso.
Nos meses subseqüentes, centenas de políticos, intelectuais, jornalistas, professores, médicos, advogados e líderes sindicais enfrentariam as masmorras da rua da Aurora, amontoados em pequenas celas ou nos corredores do DOPS. Por falta de acomodações adequadas, ficavam dia e noite em bancos de madeira, nos quais dormiam sentados, uns ao lado dos outros. Esse modesto escriba era um deles, tendo permanecido 15 dias nesses bancos e outros 15 numa masmorra apelidada de buque, seja lá o que isso quer dizer. Na verdade, era uma cela de 5m2, onde ficavam de 15 a 20 pessoas.
O crime era o mesmo. Todos eram chamados de comunistas, inimigos da Pátria, potenciais assassinos ou comedores de criancinhas. Os delegados e os investigadores da polícia civil estavam absolutamente convencidos disso e vez por outra pegavam um desses monstros e o conduziam à noite para uma delegacia distante, num bairro qualquer, para um interrogatório “científico”. Alguns nunca voltaram desse passeio noturno.
O medo transparecia em cada face, a ponto de não haver quase nenhum diálogo entre eles, que se conheciam de alguma maneira, até por ser Recife, à época, uma cidade quase provinciana. Quando alguém tentava conversar, logo era advertido pelo companheiro ao lado, com um gesto (dedo indicador sobre os lábios) ou um som: psiu, pois alguém poderia escutar tudo. Como se qualquer diálogo, àquela altura, pudesse agravar a situação de cada um.
Ninguém era solto antes de fornecer às autoridades policiais algum elemento que o condenasse, ou a seus amigos ou companheiros. Se não era comunista, quem o era?
Aos poucos, com o passar dos dias, a multidão ia sendo reduzida, com a confissão de uns e a negativa de outros. Quem era liberado recebia a advertência de que não deveria se afastar de casa, pois seria convocado novamente a depor, bastando que alguém o citasse ou denunciasse. Instalara-se o terror da delação, na tentativa de incriminar todo cidadão que de alguma forma apoiasse ou colaborasse com o Governo Arraes e, conseqüentemente, o Governo Jango, ou seja, com o avanço do comunismo.
Foi nesse clima que decidi virar paulistano, tão logo liberado por absoluta falta de prova de minha periculosidade. E aqui estou, fazendo um blog que se chama Privilégios Paulistanos.
Há 45 anos visito Pernambuco religiosamente ao menos uma vez por ano. Passeio pelo cais da rua da Aurora e vejo o Exército avançando contra o Campo das Princesas.
É um pesadelo que se repete e provavelmente levarei ao túmulo.

