MEMÓRIAS ESCRACHADAS
Mas, sempre que estou só, tento lembrar certos fatos e até me assusto com a quantidade de acontecimentos que testemunhei ou participei, direta ou indiretamente.
Quando Martine Carol esteve no Brasil para lançar um dos seus filmes no Cine República, em São Paulo, eu estava lá. O ano era 1958 e juro que a emoção só não foi maior porque talvez ela não fosse exatamente uma grande estrela. Valia o fato de encontrar-me no mesmo sagüão em que a empresa cinematográfica promovia um coquetel e só não conversei com ela porque não sabia francês além de comment passez vous .
Quando Fidel Castro e Che Guevara receberam em Havana 120 brasileiros para uma conversinha de quatro horas, a portas fechadas, em 1961, eu estava lá, ao lado de Francisco Julião, Caio Prado Júnior, Caio Gracco Prado, Arthur Lima Cavalcanti, Liana Aureliano, Germano Coelho e outras cem personalidades. Fiquei tão entusiasmado com a revolução cubana, na época, que tentei de várias maneiras ficar por lá e estudar Medicina. Não consegui, por problemas burocráticos. Escondi-me no apartamento do Habana Riviera na hora da volta, mas três dias depois me mandaram para o Rio de Janeiro em outro Tupolev.
Quando D. Helder Câmara chegou ao Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife, para assumir o cargo de Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife, eu estava lá. Fui o primeiro repórter a entrevistá-lo nesta condição, para o jornal Última Hora-Nordeste.
Quando Tancredo Neves foi operado no Incor eu estava no anfiteatro do Centro Cirúrgico. Apenas um vidro separava a cama cirúrgica dos curiosos que, como eu, se colocavam na condição de observadores. Eu havia me infiltrado entre os médicos, apesar da zelosa segurança. Acompanhava o superintendente do hospital, professor Guilherme Rodrigues da Silva, de quem era assessor de imprensa.
Quando começou a Revolução dos Cravos em Portugal eu estava em Lisboa. Chico ainda nem pensava nos primeiros acordes de sua canção de amor a Portugal. Os portugueses ainda estavam desconfiados, com dezenas de partidos comunistas, cada qual com seu jornal. Procurei em vão falar com Miguel Urbano Rodrigues, ex-colega do Estadão, onde ele havia sido editorialista e eu um simples redator. Miguel era diretor de um daqueles jornais.
Telefonei várias vezes, sem entender porque as fichas caíam rapidamente, até resolver ir pessoalmente. Mal consegui chegar à portaria do jornal. Naquela fase da vida portuguesa todos os dias explodiam bombas numa redação e provavelmente me confundiram com algum terrorista.
Não consegui achar outro amigo, Manoel Messias da Silva, um caruaruense que também morava em Lisboa após perambular pelo Chile, Canadá e União Soviética, onde estudou Economia. Posteriormente, os amigos brasileiros gozaram a minha cara e a minha ingenuidade. Afinal, como achar um Manoel em Portugal, com bombas explodindo de vez em quando nas redações? Como achar um Manoel, que também era Silva?
Quando o maestro Seizo Okawa regeu a Orquestra Sinfônica de Boston esperei o fim do espetáculo para cumprimentá-lo. Ele fez um ar de surpresa: - A brazilian here? - disse o maestro. E eu arrisquei, timidamente: - Yes, my friend,I am brazilian!
O maestro sorriu e eu fiquei com cara de bobo numa roda de supostas personalidades americanas, sem saber exatamente o que dizer. O concerto era em Tanglewood, cidadezinha a mais de 200 km de Boston, no Estado de Massachussets, onde durante o mês de julho há concertos todos os fins-de-semana, com numeroso público, especialmente de Nova York. Não sei se havia algum cearense na platéia, como é de praxe, mas pelo menos um pernambucano estava lá, numa tarde de domingo, em julho de 1997.
Já contei, em outras oportunidades, como conheci Gil, Caetano, Gal, Chico, Elis, Claudia, Paulinho Nogueira, Toquinho, Nara Leão, Roberto Carlos e toda gente boa da MBP e adjacências: era repórter da revista Intervalo, da Editora Abril. Não precisa dizer mais nada. Era obrigado - doce encargo - a persegui-los implacavelmente. Cheguei a colecionar biografias manuscritas de quase todos eles, que preenchiam um questionário-padrão. Um dia decidi encaderná-las, para evitar deterioração. Roubaram meu modesto Hobby, com o precioso material no porta-malas.
Poderia relembrar também a prisão do prefeito de Recife, Pelópidas Silveira, e seu secretário de administração, Paulo Cavalcanti, um dia depois da prisão do governador Miguel Arraes, a 1o de abril de 1964. Mas aí correria o risco de voltar a um passado que já está em todos os livros.
Teria de contar minha paixão por certa criatura e nossos encontros nada revolucionários à beira da rua da Aurora; relembrar como luxei o braço direito de tanto conversar ao telefone com outra recifense e convencer minha mãe, ainda hoje católica militante, de que minha luta era cristã. E era.
Mas juro que não estava lá quando Jesus Cristo tomou o partido dos pobres.

