sábado, 19 de janeiro de 2008

MEMÓRIAS ESCRACHADAS - 4

EUGÊNIO COIMBRA

Já me livrei de velhas agendas, roupas puídas e demais tranqueiras que atravancavam quarto, sala e cozinha. Para recomeçar, nada melhor do que jogar fora objetos desgastados pelo uso e pelo tempo. Vale tudo na ânsia da renovação, exceto macumba, que não é minha praia nem faz meu gênero. Não ando descalço na praia nem me visto de branco. Para romper o ano novo, basta um brinde.
Tento exorcizar o passado colocando uma pá de cal sobre os maus presságios. Enterro a maldade em que eventualmente me enredaram. Mas, a essa altura do campeonato, o passado já não importa, exceto o que deixou de bom.
Perdoaria os que de alguma forma tentaram obstruir minhas humildes caminhadas. Mas se minha fé é pouca e meu santo é oco. Receio não ter poderes para me conceder tal perdão, nem força para torná-lo eficaz, já que em matéria de fé não sou nenhuma fortaleza.
A chegada de um novo novo, no meu caso, coincide com mais um aniversário, quando sentimentos contrários se antepõem na tentativa de juntar cacos. Há a impossibilidade de voltar no tempo, é verdade, mas pode-se começar tudo de novo, corrigir eventuais desvios, sacudir os pés e olhar para o outro lado. Há o alívio dos acertos, podendo-se concluir que pai e mãe foram honrados.
Se pudesse navegaria o Ipojuca, do mar à nascente. Viajaria no contrafluxo, revendo suas margens tal como a minha vida. Mas o rio está quase morto, só acresce um pouco quando vai chegando perto do mar. Muitos trechos se transformaram em vales secos, que só um novo Graciliano ou novo Luís Gonzaga poderiam salvar, pela Arte.
Não tenho mais o ombro amigo de Renato Carneiro Campos para falar de antigos sentimentos. Nem o de Gastão de Holanda em suas tertúlias da rua das Pernambucanas. As ruas não têm mais as cadeiras nem o silêncio para nossas serestas.
Aos pés da Sierra Maestra tentei ser poeta: “Em Santiago de Cuba yo quiero quedarme” - concluía embalado pela tequila. De volta, queriam que explicasse o curso de guerrilha, o que aprendi com Che. Imaginem! Um poeta menor e bissexto, que conseguiu dele apenas um aperto de mão!
Como esquecer a bailarina que conduzia ao Santa Isabel para ensaiar seus primeiros passos. A bailarina ensaiava, mas quem dançava era eu, o coração na ponta dos pés.
Nas madrugadas da Avenida Guararapes encontrava Luis Marinho, Nelson Xavier, José Wilker, Luís Mendonça – a turma do Movimento de Cultura Popular – entre outros amigos. Já não havia Carlos Pena Filho, aquele dos 30 homens sentados, 300 desejos presos, 30 mil sonhos frustrados.
Esperei a chegada de Eugênio Coimbra, do Jornal do Commercio - onde eu era revisor - para agradecer a publicação de “Ausência”, no suplemento literário dominical, com ilustração de Ladjane. Sarcástico, o editor admitiu que precisava fechar o caderno de qualquer jeito. Puxou meu poema de uma gaveta e a ilustração de outra - e fechou. .
Vou ver se acho o tal poema. Quando achar, insiro aqui.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

MEMÓRIAS ESCRACHADAS - 3

HEBE CAMARGO

Para fazer Hebe Camargo chorar não é preciso quase nada. Basta mostrar uma flor ou a lua no horizonte. Basta lembrar que o SBT está fazendo aniversário. Ela chora quando recebe Gianecchini ou Paulo Autran, ou quando qualquer conjunto mambembe exibe sua performance. Desmancha-se em lágrimas por qualquer vintém. Mas imaginem se algum crítico, desses metidos a besta, que mete o pau em todo mundo, resolve esculhambar o programa dela, considerado o mais querido de todas as classes sociais. E se o comentarista pertencer à Associação Paulista dos Críticos de Arte?
Pois foi isso o que aconteceu. Numa coluna do jornal “A Gazeta”, onde substituí Walter Negrão com o pseudônimo de Zé Flávio, espinafrei o programa da Hebe em termos grosseiros. Só não a chamei de loira burra porque naquela época não era comum o preconceito contra as mulheres que não tinham cabelos pretos ou castanhos.
Na qualidade de repórter de “Intervalo” e colunista de televisão de “A Gazeta”, eu freqüentava os estúdios das emissoras em busca de notícias e entrevistas. Por isso, ia quase diariamente à TV Record, na avenida Miruna, em cujos corredores me alimentava de todo tipo de informação, inclusive de fofocas. Procurava sempre Maria Elisa Soares, que além de secretária de Paulo Machado de Carvalho era também a assessora de imprensa da emissora, quando esse tipo de atividade não era ainda institucionalizado.
Ao procurá-la no dia em que o tal comentário foi publicado (1972), ela gentilmente me aconselhou a sair, confidenciando-me que naquele exato momento Hebe estava aos prantos. Conversava com a cúpula da emissora as grosserias que eu publicara.
Seria melhor, portanto, que eu me retirasse dali rapidamente, dizia Maria Elisa, antes que a produção me identificasse. Afinal, a casa estava solidária com a “rainha”, que não era nenhuma santa, mas é como se fosse. Seus auxiliares e amigos a adoravam e se me encontrassem, iriam dizer o diabo ou partir para a ignorância.
Hoje reconheço e me penitencio: havia sido desnecessariamente cruel e usado termos vulgares. Talvez Hebe até merecesse algumas críticas, mas não podemos esquecer que as mais importantes personalidades de todos os setores de atividades a tratam ainda hoje como rainha. Impossível essa mulher não ter suas qualidades.
No ano passado, Maria Elisa foi como entrevistada pelo jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, na qualidade de primeira assessora de imprensa de uma emissora. Procurei-a para relembrar o episódio. Elegantemente, ela desconversou. Curtindo flores e pássaros na Serra da Cantareira, me disse que não se lembrava do incidente.
Também não sei se vale a pena relembrar, exceto a título de curiosidade.

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Televisão

HEBE CADA VEZ PIOR

Custa-nos acreditar que programas como o de Hebe Camargo liderem a audiência nos domingos à noite. Não acreditamos que o publico paulistano chegue ao ponto de perder três ou quatro horas de sua preciosa vida diante de um televisor, vendo e ouvindo as maiores tolices, os velhos chavões, os piores lugares-comuns. Tudo isso é realmente muito difícil de acreditar. E muito mais difícil ainda quando vemos programas como o de domingo passado. Nem o bonito cenário, nem o esforço da direção de TV, nem a inclusão de mini-tapes, nada, absolutamente nada conseguiu disfarçar – ao menos isso – a vulgaridade, a leviandade e a superficialidade com que a sra. Hebe Camargo trata os mais variados temas. Depois de muito criticada por causa do abuso de adjetivos do tipo “maravilhoso”, Hebe criou uma nova bossa. Ela expressa sua admiração pelas coisas que vê e mostra com um longo suspiro, um emocionante suspiro, seguido geralmente de gostosas gargalhadas. A TV Record, a Equipe A, dona Hebe Camargo, seja lá quem for o responsável por esse programa domingueiro, devia ter um mínimo de respeito pelo público. No programa da Hebe, o mais inteligente convidado fica com cara de palhaço, aderindo à badalação geral em torno do programa. Porque ele é líder de audiência, tudo quanto é promoção vai lá fazer sua propaganda. Tudo quanto é madame vai convidar gente para a festinha de caridade do colégio ou da matriz. Tudo quanto é cantor vai mostrar seu novo disco. Tudo quanto é diretor vai convidar para a peça que estréia logo mais. Quer dizer: o público compra televisor para se divertir ou para receber somente mensagens comercias. Não chegam os tapes das agências de publicidade que tomam quase toda a programação das emissoras? Enfim, por que esse programa continua no ar?

Zé Flávio
A Gazeta, 1972


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quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

MEMÓRIAS ESCRACHADAS

ALTEMAR DUTRA

Um dos cantores com quem mantinha maior amizade, quando repórter da revista Contigo, era Altemar Dutra. Trata-se de figura humana simples, carinhosa, amiga, que não fazia nenhuma questão de cantar a qualquer hora, em qualquer lugar, qualquer música que lhe pedissem. Não fazia nenhum mistério quando lhe ofereciam qualquer bebida, para molhar a garganta e aquecer o coração. Cachaça, conhaque ou cerveja.
Fui algumas vezes ao sítio dele, nas proximidades de Mogi das Cruzes, onde a maior diversão, naturalmente, era cantar e encher a cara, sempre com fartura de bebida e comida.
A experiência mais curiosa, para não dizer vergonhosa, ocorreu no dia em que fui convidado a entregar-lhe o Troféu Imprensa, no Programa Sílvio Santos, que nessa ocasião era apresentado ao vivo, diretamente do auditório da praça Marechal Deodoro.
Marcamos um encontro no apartamento dele, na rua Veiga Filho, Higienópolis, para irmos juntos ao auditório. Antes de sair, ele fez questão de me mostrar seus vários troféus, espalhados pelos quartos e corredores. De melhor cantor eram dezenas, discos de ouro perdi a conta. Cada troféu um gole.
No meio da tarde, quando íamos saindo para a TV Globo, ele fez questão de levar mais um litro de uísque, sabendo que só seria chamado para receber o troféu à noite. O que fazer durante a tarde inteira, não é mesmo?
Quando Silvio Santos nos chamou, finalmente, para a cerimônia de entrega do troféu, já estávamos pra lá de Bagdá e subimos ao palco praticamente abraçados, segurando-nos mutuamente, com o risco de vergonhosa queda em pleno palco.
Foi minha vez de fazer a entrega formalmente, não sem antes proferir algumas palavras que justificassem a concessão da honraria.
Comecei dizendo que chegara há pouco tempo da casa dele, onde todos os quartos e corredores eram tomados por troféus. Assim - dizia eu - estava entregando apenas mais um, e não sabia onde poderia ser colocado.
Foi o bastante para Sílvio tirar-me o microfone e desconversar, rapidamente, passando ao próximo premiado. Não é preciso dizer que a partir daquele ano nunca mais participei do júri do Troféu Imprensa, que integrava desde sua criação, representando a revista Contigo.
Continuamos grandes amigos, até que um aneurisma cerebral levou Altemar inesperadamente, aos 43 anos, a 9 de novembro de 1983, em Nova York, não sei se por uísque. Acho que não, pois eu mesmo ainda estou aqui, aos 71.
Quanto ao criador do troféu, Plácido Manaia Nunes, despediu-se do nosso convívio há menos de um ano.

MEMÓRIAS ESCRACHADAS

ELIS REGINA

Há 26 anos, no dia 19 de janeiro, Elis Regina Carvalho Costa deixava nosso convívio. Ninguém sabe o que ocorreu depois que os amigos e o namorado, Samuel MacDowell, deixaram o apartamento em que houvera uma grande festa, daquelas em que ela reunia os músicos e amigos mais íntimos.
Elis tinha, quem sabe, o tal comportamento bipolar de que falam os psiquiatras. Ora estava séria, compenetrada, ora caía em gargalhadas histéricas. Talvez isso explique a mudança naquela madrugada de 19 de janeiro. Eu estava em férias, no Recife, quando ouvi a notícia na televisão. Só não chorei para não dar bandeira. Era do tipo homem que é homem não chora, mas naquele momento o mundo inteiro ruiu sobre mim.
Repórter da revista Intervalo (Editora Abril), acompanhava toda semana o programa “O Fino da Bossa”, na TV Record. Ia logo depois do almoço para o boteco ao lado, onde sentava ao lado dos músicos e dos cantores que se aqueciam para os ensaios. Apareciam Baden Powell, Paulinho Nogueira, os irmãos Godoy – Amilson, Adylson e Amilton, do Zimbo Trio, Toquinho, Cyro Monteiro, enfim, quase todos os monstros sagrados da MPB. Era ali que amarrava as entrevistas, buscava informações, colhia dados importantes. Às vezes me infiltrava entre eles para assistir os ensaios. Durava até Elis Regina perceber. Quando pressentia a presença de repórteres, quaisquer que fossem, expulsava-os do estúdio sem piedade. Era exigente com os músicos, às vezes até grosseira, mas era discreta o suficiente para não discutir na presença de jornalistas. Além disso, as discussões eram meramente técnicas, perfeccionista que era.
Elis não se abria com os jornalistas, exceto com os mais íntimos, como Regina Echeverria, que acabou escrevendo o excelente “Furacão Elis” (Editora Globo) e Nelson Mota, que em “Noites Tropicais” (Editora Objetiva) admitiu ter tido um caso com ela, quando ainda casada com Ronaldo Bôscoli. A temperamental e apimentada Elis Regina só não cedeu aos encantos do mulherengo Toquinho. No programa-homenagem que a TV Globo reapresentou no dia 14 (segunda-feira), o próprio Toquinho admitiu sua frustração em jamais ter conseguido alguma coisa com ela. Já o Gilberto Gil admitiu ser apaixonado, mas nunca falou com ela sobre isso. No programa, Elis é representada por Hermila Guedes, a revelação olindense de “Céu de Suely”.
Louve-se a sensibilidade da Rede Globo, ao reapresentar o programa sobre Elis, oportunamente rememorada. Seus filhos estão aí, fazendo jus ao DNA. Seus filhos e seus discos, fitas, programas e demais tipos de gravações disponíveis na Internet.