MEMÓRIAS ESCRACHADAS - 4
Já me livrei de velhas agendas, roupas puídas e demais tranqueiras que atravancavam quarto, sala e cozinha. Para recomeçar, nada melhor do que jogar fora objetos desgastados pelo uso e pelo tempo. Vale tudo na ânsia da renovação, exceto macumba, que não é minha praia nem faz meu gênero. Não ando descalço na praia nem me visto de branco. Para romper o ano novo, basta um brinde.
Tento exorcizar o passado colocando uma pá de cal sobre os maus presságios. Enterro a maldade em que eventualmente me enredaram. Mas, a essa altura do campeonato, o passado já não importa, exceto o que deixou de bom.
Perdoaria os que de alguma forma tentaram obstruir minhas humildes caminhadas. Mas se minha fé é pouca e meu santo é oco. Receio não ter poderes para me conceder tal perdão, nem força para torná-lo eficaz, já que em matéria de fé não sou nenhuma fortaleza.
A chegada de um novo novo, no meu caso, coincide com mais um aniversário, quando sentimentos contrários se antepõem na tentativa de juntar cacos. Há a impossibilidade de voltar no tempo, é verdade, mas pode-se começar tudo de novo, corrigir eventuais desvios, sacudir os pés e olhar para o outro lado. Há o alívio dos acertos, podendo-se concluir que pai e mãe foram honrados.
Se pudesse navegaria o Ipojuca, do mar à nascente. Viajaria no contrafluxo, revendo suas margens tal como a minha vida. Mas o rio está quase morto, só acresce um pouco quando vai chegando perto do mar. Muitos trechos se transformaram em vales secos, que só um novo Graciliano ou novo Luís Gonzaga poderiam salvar, pela Arte.
Não tenho mais o ombro amigo de Renato Carneiro Campos para falar de antigos sentimentos. Nem o de Gastão de Holanda em suas tertúlias da rua das Pernambucanas. As ruas não têm mais as cadeiras nem o silêncio para nossas serestas.
Aos pés da Sierra Maestra tentei ser poeta: “Em Santiago de Cuba yo quiero quedarme” - concluía embalado pela tequila. De volta, queriam que explicasse o curso de guerrilha, o que aprendi com Che. Imaginem! Um poeta menor e bissexto, que conseguiu dele apenas um aperto de mão!
Como esquecer a bailarina que conduzia ao Santa Isabel para ensaiar seus primeiros passos. A bailarina ensaiava, mas quem dançava era eu, o coração na ponta dos pés.
Nas madrugadas da Avenida Guararapes encontrava Luis Marinho, Nelson Xavier, José Wilker, Luís Mendonça – a turma do Movimento de Cultura Popular – entre outros amigos. Já não havia Carlos Pena Filho, aquele dos 30 homens sentados, 300 desejos presos, 30 mil sonhos frustrados.
Esperei a chegada de Eugênio Coimbra, do Jornal do Commercio - onde eu era revisor - para agradecer a publicação de “Ausência”, no suplemento literário dominical, com ilustração de Ladjane. Sarcástico, o editor admitiu que precisava fechar o caderno de qualquer jeito. Puxou meu poema de uma gaveta e a ilustração de outra - e fechou. .
Vou ver se acho o tal poema. Quando achar, insiro aqui.

