sexta-feira, 14 de março de 2008

MEMÓRIAS ESCRACHADAS - 6

1964: SEQÜELAS IMPONDERÁVEIS

Ao pisar o solo pernambucano depois de certo tempo, sente-se certa melancolia diante da paisagem, da comida, do cheiro que vem do mar e principalmente ao perceber que desapareceram, às vezes literalmente, nossas referências.
A vida não é a mesma. Os costumes, as pessoas com quem nos relacionamos no dia-a-dia, os amigos ou inimigos que inevitavelmente vamos adquirindo formam um novo lastro e nos conduzem a outro patamar, não necessariamente melhor, mas desgraçadamente irreversível. É preciso muita força para recompor os vínculos e retornar às origens, onde não encontramos mais nossas raízes.
Nosso caso, embora similar a muitos outros, tem com certeza suas peculiaridades. As tentativas de volta à terra em caráter definitivo nunca deram certo, nem quando todas as condições se apresentavam francamente favoráveis. A gente se amolda ao novo estilo de vida de tal forma que sente dificuldade em romper com a nova situação.
Deve haver, supomos, uma diferença entre migração por necessidade, motivada por contingências econômicas, e migração por injunções políticas. Adepto incondicional do Governo Arraes-Pelópidas, experimentamos, 44 anos depois, algumas seqüelas invisíveis e imponderáveis.
Nada impede, na prática, o retorno sempre sonhado, mas sempre existe a impressão de alguma coisa no ar, além dos aviões de carreira.
Ainda lembro com extraordinária nitidez as bestas-feras que separavam os perigosos subversivos dos ingênuos, os intelectuais idealistas dos inocentes úteis, os candidatos a dedo-duro dos inflexíveis. Os critérios não eram objetivos. Quando nos convidaram para informar o nome dos companheiros jornalistas que tramavam contra as instituições democráticas e me recusei a nomeá-los, mesmo sendo todos obviamente conhecidos, jogaram-me no Buque, onde fiquei cerca de um mês dividindo espaços com dezenas de outras pessoas que sequer conhecia. Na segunda ou terceira vez que nos intimidaram, na tentativa de que revelasse os bastidores da subversão, nos liberaram com a recomendação de que não saísse de casa, de onde poderiam nos retirar outras vezes. Fui para São Paulo.
Mesmo não sendo nenhuma figura proeminente, fugimos com medo dos interrogatórios imprevisíveis, no meio da noite, em delegacias distantes.
Assim, ainda com a memória viva daqueles dias de 1964, reduzimos nossa pernambucanidade - seja lá o que isso venha a ser - aos discos e livros que eventualmente consigamos.
Somos gratos a SpokFrevo Orquestra, que resume com extraordinária competência o que é ser pernambucano.
Quanto às seqüelas imponderáveis, nenhum remédio. Resta-nos o consolo de que o governador é neto de Miguel Arraes de Alencar. Não é tudo, não resolve, mas pelo menos não constitui nenhuma vergonha.