quinta-feira, 31 de março de 2011

COMO VIREI PAULISTANO

Quando estourou o golpe de 1964 eu estava com apenas 27 anos e completamente absorto na idéia de mudar os destinos do mundo. Era um repórter tão indignado quanto o jornal em que trabalhava - Última Hora/Nordeste - braço mal disfarçado do Governo Miguel Arraes de Alencar em Pernambuco.

Cobrindo o dia-a-dia da Câmara Municipal como repórter político, mantinha relações profissionais e de amizade com os 25 Vereadores e acompanhava todos os projetos de interesse da municipalidade. Daí talvez a indicação de meu nome para a assessoria de imprensa da Prefeitura do Recife, na gestão Pelópidas Silveira. Foi exatamente na Sala de Imprensa que instalei um aparelho de rádio e um gravador para registrar o discurso de João Goulart e os acontecimentos que se desenrolavam no Rio de Janeiro. Era necessário manter o prefeito informado dos acontecimentos, embora ele estivesse em contato permanente com o governador Miguel Arraes e o Comando Militar do Nordeste.

No dia 1º de abril levei o rádio, que era de minha propriedade, para o meu apartamento, e devolvi o gravador, mediante recibo ainda hoje em meu poder, para a Agência Nacional. O próprio diretor da Agência, jornalista Antônio Avertano Barreto da Rocha, assinou o recibo. No dia seguinte, os jornais de Pernambuco e os do Sul do país noticiaram a existência de poderoso sistema de comunicação comunista instalado na prefeitura do Recife pelo assessor de imprensa Flávio Tiné, que teria sido visto levando para casa os tais equipamentos. Até hoje acho graça nessa história mirabolante.

Não menos mirabolante como a que sucedeu dias depois quando interrogado pela polícia. O DOPS recolhera em meu apartamento em Boa Viagem, que maliciosamente chamava de minha Pasárgada, por abrigar meus sonhos de juventude, alguns quilos de livros, posters e fotos de Cuba, onde estivera por cerca de um mês, em 1962. Os algozes queriam que eu contasse detalhes de um curso que eu teria feito em Havana. Que armas eu aprendera a manejar, que tipos de bomba aprendera a fabricar, em que manobras eu me especializara. Alguma experiência militar já constava do meu currículo: cabo da Aeronáutica dos 18 aos 20 anos, na Base Aérea do Recife e no Campo de Marte, em São Paulo, onde servira seis meses.

De nada adiantou confessar minha inocência. Só fui solto quando invoquei o testemunho da 2ª Seção da 5ª Região Militar, que freqüentava inutilmente em nome da UH, para ouvir a opinião dos militares sobre as ocorrências políticas. O chefe de reportagem do jornal mandava ouvir o Comandante a respeito da situação. Eu tentava recusar a tarefa, alegando sua total impossibilidade, mas o jornal insistia. Entrava e saía do quartel, bem ao lado da Faculdade de Direito, pisando em ovos. Acatava sem discutir a palavra do major de plantão. Lembro que conversei pessoalmente com o general Humberto Castelo Branco, tentando dissuadi-lo a falar alguma coisa. Gentilmente ele pediu que me retirasse. Minha presença ficou marcada pela fineza no trato, ao ponto de informarem à polícia que não havia nada contra mim. Não sei exatamente como me qualificaram, mas me mandaram embora, apenas com a recomendação de que não saísse de casa, pois poderia ser chamado novamente. Assim, virei paulistano desde então. Lá se vão 47 anos.